
Vou tentar adivinhar algo sobre você. Fecho os meus olhos agora, e vou entrar na sua mente. Estou vendo um pouco da sua história. Você tem visto várias postagens nas redes sociais e alguns artigos sobre liderança e empreendedorismo. Consigo ver que a palavra assertividade tem aparecido com muita frequência em frente aos seus olhos.
Como me saí? Meus poderes estão funcionando?
Ok, depois de parecer ridículo eu admito, eu não tenho esses poderes mentalistas. Na verdade, ninguém tem. Mas é um assunto que provavelmente eu nunca vou abordar. Até porque tem algo mais importante para o momento. A assertividade como um problema a ser solucionado.
Sendo mais claro, a assertividade em si não é o problema, mas a forma com que ela aparece na nossa vida: como demanda.
Para entender isso, vamos buscar algo em comum nas nossas histórias de vida. É bem provável que mesmo que você não me conheça pessoalmente, ou tenha crescido muito longe do interior do Paraná, você deve ter passado por experiências semelhantes.
Estava eu a vagar pelo meio de interação social mais importante da minha juventude, a escola. Era uma tarde de outono ensolarada, com um céu profundamente azul, um vento fresco bagunçando meu cabelo e a trilha sonora de um araponga cantando ao fundo.
Me encontro no pátio com um colega de classe, um amigo na verdade. Antes daquele momento, costumávamos passar todas as tardes andando de bicicleta pelo bairro. Mas naquela situação alguma coisa não estava muito bem.
Sendo bem sincero, não faço ideia do que aconteceu para chegarmos naquele clímax. Ele me olhava com ódio, e eu, estava muito preocupado com o que poderia acontecer.
Discutimos, até que alguém o empurrou em minha direção.
Aproveitando a aproximação repentina, ele estende o braço com precisão e acerta o punho cerrado no meu nariz.
Instintivamente, com a mão esquerda protejo minha face de possível segundo golpe, enquanto acalento a dor. A mão direita se fecha, meu braço dispara em um movimento circular em direção ao rosto do meu amigo, e pouco antes do contato, decido abrir a mão, e transformar o que seria um soco, em um tapa. Ele caiu e escorregou pelo piso lustroso, enquanto eu decidi me afastar.
Há um detalhe importante aqui. Eu era uma criança grande para minha idade, acho que na terceira série, eu era o maior da turma. Este meu amigo, em contraponto, se destacava por ter uma estatura consideravelmente abaixo da média. A cena era praticamente de um Davi enfrentando Golias, e o resultado também foi semelhante.
Apesar do meu tapa tê-lo derrubado, o golpe que me foi aplicado foi preciso. Aquilo doeu muito e eu me senti derrotado. Chorei como uma criança da terceira série.
Agora você deve estar se perguntando o porquê de eu não ter imposto minha superioridade física sobre ele?
Foi isso que eu ouvi durante toda a semana. Como poderia eu ter permitido que alguém com a metade do meu porte físico socasse meu nariz e ficasse impune?
Não sei responder. Assim como não sei o motivo da nossa briga. Só consigo lembrar de uma coisa. Eu não conseguia entender como as pessoas esperavam que eu subjugasse alguém em desvantagem. Isso vinha desde os colegas, e até mesmo de alguns adultos que afirmavam, em suas palavras, que eu deveria ter sido mais agressivo.
Dois dias depois, estávamos curtindo as maravilhosas tardes de outono com nossas bicicletas.
Em diversas ocasiões semelhantes, e em outras que não terminaram em contato físico, sempre ouvia argumentos sobre a opção de usar meu porte físico para solucionar os impasses. Mesmo que fosse apenas como intimidação.
Enfim, fui crescendo, as responsabilidades foram aumentando, e creio que ninguém mais seria capaz de argumentar algo semelhante. Será
O fato é que agora, mesmo sendo uma geração de adultos responsáveis, o valor da força coercitiva, da imposição e humilhação continuam valendo. Talvez a maioria dos argumentos não citem a opção de tapas e socos, pelo menos nos meios que transito. Mas é comum ouvir coisas do tipo:
?Vou lá e vou esfregar na cara!?
?Vai ter que me engolir!?
?Não vou deixar barato!?
?Tem que colocar a pessoa no lugar dela!?
Tais expressões continuam sendo a mesma incitação ou método de ?resolução de problemas? que vivemos no decorrer da nossa juventude. E mesmo hoje, o comportamento agressivo é visto como uma demonstração de força e capacidade. O que é lamentável.
Agora, aquele menino que cresceu sendo incentivado à uma postura agressiva tem grandes aspirações. Pretende uma posição de destaque, busca qualificações técnicas e montar um currículo invejável. Sua carreira tem tudo para subir como um foguete, até que se depara com uma demanda essencial para o seu crescimento, uma tal de ASSERTIVIDADE.
O grande ?problema da assertividade? é que esta se trata de uma classe de habilidades socias composta por comportamentos complexos. O que demanda condições bem desenhadas para o seu aprendizado durante uma linha natural de desenvolvimento. Condições estas que foram praticamente inexistentes na minha geração.
Esse desenho de um quadro de interações sociais é basicamente um contexto de interações que valorizam e reforçam comportamentos assertivos. Desculpar-se antes da ocorrência do conflito, admitir falhas, buscar soluções equilibradas ou defender seus direitos respeitando os limites dos outros. Tudo isso fica em segundo plano numa cultura que valoriza quem ?não leva desaforo pra casa?.
No entanto, a sociedade que pretendemos construir, não importa por qual viés ideológico, carece de líderes capazes de gerar envolvimento e engajamento. Com habilidades de solucionar conflitos e de ensinar a suas equipes métodos eficazes de solução.
Os resultados tem sido cada dia mais claro. Métodos coercitivos, imposições e falta de habilidades são destrutivos.
Negócios são formados por pessoas e será impossível manter um negócio inteiro com pessoas quebradas.