Existe um modo de agir imperativo entre as culturas ocidentais. Ele sempre aparece nos momentos de impasse, dificuldades ou quando algo precisa ser corrigido. Muito comum em pessoas em posição de responsabilidade. Pais, professores, autoridades e, obviamente, líderes. Esse modo de agir, geralmente relacionado ao princípio de ação e reação, é comumente identificado pela pergunta ?o que fazer?? que remete a outra ainda mais importante e perigosa, que é ?o que dizer??.
Melhor do que explicações são exemplos, então, veja se você já presenciou ou participou de alguma cena como estas:
Preocupado com a notícia de que alunos de uma determinada escola estão apresentado comportamentos reprováveis, uma pessoa se dirige a um pai como a seguinte indagação: E se for o seu filho que estiver aprontando, o que você vai dizer para ele?
Um gerente de recursos humanos está tendo problemas com o absenteísmo, ao procurar ajuda de um consultor ele vai direto ao ponto: o que eu devo dizer para convencê-los de que as faltas são ruins para eles e para a empresa?
Se você for um líder, ou pretende ser um, já deve ter passado alguns momentos no banho ensaiando algum discurso. Uma resposta para ?o que dizer? em uma situação difícil. Talvez a respeito de um conflito, ou um problema que afeta a rotina da empresa e precisa ser tratado antes que se agrave.
Você ensaia?
Ensaia no banho, no trânsito, antes de dormir?
Até quando está orando você se perde, e acaba imaginando o que dizer naquela situação.
Pois é, antes de continuar, quero deixar claro que estes ensaios não são um problema. Na verdade, são até parte da solução.
O ensaio, inclusive, faz parte do meu método de treinamento, e recomendo fortemente que sejam realizados com certa rotina.
Mas antes de sair se preparando (ou ensaiando) para a batalha, seria muito importante saber se ela precisa acontecer. E não apenas isso, é bom saber muito bem que batalha é essa (não vou entrar em mais detalhes, você já deve ter lido Sun Tzu).
O que ocorre, é que as pessoas em posição de responsabilidade, ou autoridade, acabam presumindo que, por estar onde estão, são obrigadas a ter as soluções para todos os problemas, como se isso tudo viesse em um pacote de experiências e formação. O que, de fato, é um pensamento bem idiota, se me permite uma pitada de agressividade.
Antes mesmo de ficar imaginando o que fazer, e por consequência, o que dizer, seria muito importantes levantar as informações para o planejamento estratégico. E aí, entram os princípios da comunicação, afinal de contas, informações transitam nas fibras da rede de comunicação.
Como psicólogo, meu interesse está na forma como as pessoas se comportam, e como este comportamento afeta o ambiente, e por conseguinte, afeta novamente a pessoa. E dentro desta teia, só me resta pensar na melhor forma de manter um líder conectado nesta rede de informações.
Em meio a tantas inovações tecnológicas, que tem como pedra fundamental a necessidade de comunicação, existe algo que não perde seu status e hierarquia de importância, apesar de parecer algo arcaico, simples e de grande disponibilidade. É a grande ferramenta de conexão entre as pessoas.
Estou falando da audição.
Ahhh, Nestor, você tá mal de piada.
Claro que estou, nunca acreditei no meu potencial humorístico.
Por isso estou falando realmente muito sério, quando afirmo que a audição é uma ferramenta de extrema importância, e ainda assim, tem sido esquecida.
Quer ver só, vamos ao exemplo que dei no começo:
O que você diria para o seu filho?
Eu ouviria ele primeiro!
O que você diria para os colaboradores deixarem de faltar?
Eu ouviria eles primeiro, e buscaria entender as razões das faltas. Talvez, o problema nem se quer demandaria uma fala, mas uma mudança.
Nada mantém uma pessoa mais conectada à uma relação do que ser ouvida. E de bônus, você ainda tem muitos insights para resolver problemas ou até mesmo, propor inovações.
Se você quer assumir uma posição de liderança, sem dúvida nenhuma vai precisar falar muito bem.
Mas se quiser ser um excelente líder, terá que ser ainda melhor no ouvir.